Na semana passada, tivemos mais um exemplo claro disso. Um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira, que alcançou impressionantes 318 milhões de visualizações em sua conta oficial do Instagram, trouxe à tona a polêmica em torno do uso do PIX como ferramenta de monitoramento da renda dos brasileiros pela Receita Federal.
A principal preocupação apontada é o impacto sobre trabalhadores informais, cuja renda passaria a ser mapeada e tributada com maior rigor.
A Instrução Normativa 2.219, de fato, facilitaria o cruzamento de dados entre transações via PIX, cartões de crédito e declarações de renda. As inconsistências detectadas resultariam em multas, bloqueios de CPFs e um aumento significativo na arrecadação do Governo Federal. No entanto, essa medida foi amplamente criticada por sua abrangência e pelo impacto desproporcional sobre a população mais vulnerável.
Deixo claro que desejo um Brasil onde os governos — federais, estaduais e municipais — cobrem percentuais de impostos menores, permitindo que os cidadãos tenham mais liberdade e oportunidades para prosperar. Contudo, o discurso do Secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, ao anunciar a revogação da normativa, trouxe reflexões importantes. Segundo ele, a decisão foi tomada em razão de “fake news” disseminadas sobre o tema. Aqui surgem questionamentos inevitáveis: seriam, de fato, informações falsas? Se sim, o governo errou ao recuar em uma medida correta, o que caracterizaria prevaricação. Por outro lado, se as críticas têm fundamento, seria o governo o responsável por disseminar “fake news” ao tentar minimizar os efeitos da normativa.
Outra interpretação plausível vem do editorial do Estadão: “Lula já não governa. É governado.” Em outras palavras, a prioridade do atual governo parece ser a sobrevivência política, abrindo mão de diretrizes ideológicas ou planejamentos de longo prazo para focar em apagar incêndios e manter-se no poder.
O episódio do PIX remete às manifestações de junho de 2013, que começaram pelo aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus. Embora inicialmente impulsionadas por grupos de esquerda, as manifestações ganharam apoio amplo, unindo direita, esquerda e a maioria insatisfeita da população, que na época carecia de uma identidade ideológica definida. Hoje, com um contexto macroeconômico semelhante, Lula reconhece que a direção possui um público cativo e que a maioria da população não está disposta a aceitar novos impostos. Antecipando possíveis manifestações, o governo recuou.
Inicialmente, o discurso defendia a normativa como uma ferramenta para combater traficantes e sonegadores.
Agora, o tom mudou para ameaças de investigação pela Polícia Federal contra aqueles que criticaram a medida.
Esse contraste evidencia a fragilidade do governo ao lidar com a opinião pública em um mundo digital descentralizado.
O governo ainda parece alheio ao funcionamento do ecossistema digital, onde cada indivíduo tem uma voz amplificada pelas redes sociais. Não foi apenas o vídeo de Nikolas Ferreira que mobilizou a opinião pública; foi o endosso coletivo dos cidadãos, que se identificaram com a mensagem e se manifestaram contra a imposição de novos tributos. Essa realidade demonstra que o poder de influência no mundo digital está descentralizado, não se restringindo a lideranças políticas ou institucionais.
Em resumo, o governo não demonstrou preocupação com os desafios diários enfrentados por trabalhadores informais, como donos de lanchonetes, motoristas de aplicativo e moto-taxistas. Esses profissionais, que muitas vezes lutam para sustentar suas famílias, foram retratados como sonegadores, e não como cidadãos que merecem apoio para prosperar.
O episódio do PIX é um alerta: em um país marcado por desigualdades e alta carga tributária, a imposição de medidas fiscais sem o devido debate público não é apenas imprudente, mas também insustentável.
O governo precisa aprender a ouvir o povo e adaptar suas políticas à realidade digital e social do Brasil contemporâneo.

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